O dia em que Manuel Alegre foi a casa
Um dia com... Manuel AlegreO candidato no centro do seu quadrado: em Águeda, o "Manel" não esteve sozinho.
É jazz que se ouve quando sobe a rua das lojas na manhã de um sábado de Dezembro. Não vai sozinho, apesar de colado à imagem de 'lutador solitário'. Candidato independente, suprapartidário, sem o apoio de um partido ainda que pertença à comissão política do que governa, apresenta-se "livre, justo, fraterno" e contra o sistema a que, afinal, pertence. Por via desse pioneirismo, vaticina, haverá de marcar a História, ou "fazer História", expressão cara ao deputado/escritor que se revê na épica e lírica camonianas. Épico, lírico, solitário? Ou estas classificações não passam de poesia quando em causa está a luta política? Por agora, refere, "criou um facto político". Sobe a rua e as bandeiras assinalam-no. "Portugal de Todos", lê-se em fundo azul ou branco. São mais um ponto de cor entre decorações de Natal. Segue animado pelo jazz que continua a ouvir-se, a dar música a este seu tempo político, mas não se estranharia que fosse o jazz a servir de base às palavras que escreveu num recente tempo poético, em O Quadrado (D. Quixote) "Não sei ao certo em que guerra estou. (...) Por vezes pegam no megafone e dão-me ordem de rendição: Estás sozinho, dizem. És um soldado sozinho numa guerra que há muito está perdida. [...] Defendo este reduto. É o meu quadrado. (…) Por isso não me rendo. Por mais que me intimem e me intimidem continuarei a resistir. Um homem não se rende." Soares recordou essas palavras no debate entre ambos, atribuindo-lhes um sentido político que tantos outros também lhes vêm dando desde que o livro foi editado em Setembro, quando ainda não tinha anunciado a candidatura. Alegre, que gosta de "separar a vida política da actividade de escritor", limitou-se a dizer que se tratava apenas de um texto poético e afirmou: "Hoje há muita gente no meu quadrado." Agora não sobra tempo para a poesia. A candidatura alterou-lhe as rotinas. "Os dias, passo-os a pensar nisto." Mãos nos bolsos do sobretudo azul, óculos de sol castanhos, sorri, como que resignado a uma condição que lhe retirou tempo para escrever algo além de intervenções, e para outras leituras que não as de jornais e sínteses de documentos. Está na terra onde nasceu e vai distribuindo abraços e beijos a velhos conhecidos que o saúdam pelo nome próprio. Em Águeda, ele é 'o Manel', antes de político, escritor ou candidato. Os músicos que o acompanham tocam clássicos em notas previsíveis, tentando evitar que o concerto reflicta os tropeções a que os instrumentos são sujeitos. Jazz para uma campanha de rua não é coisa de todos os dias. E a banda segue Alegre que cumprimenta quem o chama na barbearia, os que acenam à porta da loja de tecidos ou quando faz um desvio para mostrar a casa onde nasceu. "Ó Joquinha anda cumprimentar o nosso presidente; é o poeta da terra!" ouve-se junto aos Bombeiros. O Joquinha vem, vermelho de vergonha, e Alegre espera e cumprimenta. O mesmo Alegre que não disfarça o constrangimento quando alguém o evita, ainda que mantenha o sorriso e pose altiva. Tal como o Joquinha, "é um homem tímido", justifica o staff. Mas estar em campanha é correr riscos, e escutar o que não se quer ouvir nem é dos maiores. De resto, resume o próprio, há que "levantar todos o dias muito cedo, ir a muito sítios, inaugurar muitas sedes, participar em almoços e jantares, contactar com as pessoas. E tenho de reunir muito, porque muitas decisões passam por mim. É viver integralmente a campanha". Saiu de casa, em Lisboa, pelas oito da manhã e chegou a Águeda antes da hora marcada para a passeata. "Tentamos sempre ser pontuais", precisa a mulher, Mafalda, um rosto que as câmaras vão mostrando sempre ao lado de Alegre desde que anunciou a candidatura. "Achei que devia dar todo o apoio ao meu marido nesta decisão". Leva uma rosa vermelha na mão e quer passar discreta entre os microfones. "É ele o protagonista". Afinal, não é por ela que chamam os locais, ainda que os de fora se demorem a fazer-lhe o retrato. Não são muitos os que o seguem, mas bastantes os que o solicitam. "Ó Manel, 'tá aqui uma senhora que quer cumprimentá-lo!"; "Ó Manel, vem aqui que a Agustinha 'tá cansada!". Alegre quer responder a todos. Já participou em muitas campanhas e sabe o custo de um esquecimento, uma distracção, um sorriso menos aberto. Esta, no entanto, é especial. "Concorrer à Presidência é diferente. Envolve-me directamente e a todos os que confiarem em mim". O dia foi rico em farpas a Soares, ainda que este seja um nome que não consta no discurso. Questão de estilo. Afinal, Soares é figura presente e personagem nada secundária no capítulo Alegre, candidato à presidência. Foi a Águeda inaugurar mais uma sede de campanha, um casarão cor de rosa na rua que leva o nome do avô - Manuel Alegre, como ele -, "a mais querida de todas as sedes", bem perto da escola primária onde aprendeu "a jogar à bola e a gramática e o português" que hoje sabe. Aponta companheiros de então entre os que ouvem aquele que é o primeiro discurso do dia, uma plateia sem vedetas nem dirigentes partidários, que se acotovela numa assoalhada da casa para o escutar a falar de afectos, da defesa da língua, da legitimidade em permanecer no PS, mesmo concorrendo fora dele, porque "não há donos de partidos". Sublinha isso e a ausência de uma máquina partidária que sustente os custos da campanha. Dá exemplos, deita contas ao preço de um outdoor e multiplica-o pelo mínimo de cartazes que precisa para se mostrar. "Uma fortuna". E, já com as primeiras notas da Trova do Vento que Passa audíveis, conclui "Não temos dinheiro, temos a alegria". No entusiasmo, anuncia para Águeda o final da campanha. "Foi aqui que anunciei a candidatura; é aqui que quero encerrá-la." Demora-se em Águeda, alonga-se no discurso durante um almoço de apoiantes em Cacia e atrasa-se para a inauguração da sede em Aveiro. A sala enche para o ouvir falar dos mesmos temas pela terceira vez no dia. Há caras novas, mas a maioria acompanha-o desde manhã. E continua a aplaudir o homem que fala de uma "nova estratégia para Portugal" com o tom de quem diz um poema. O senhor das grandes estiradas em jornada pelo país azul Se chegar a Belém, diz que chega com o povo. Cita Allende, mas também Sophia e Torga, recorda Rimbaud e repete palavras como "pátria","língua" e "alma" para compor a mensagem que quer transmitir: é o senhor de um "nova estratégia nacional". Pintou a campnha de azul, a cor que associa a Portugal. Pelo Atlântico, justifica, e não pela monarquia, apesar do respeito manifesto por alguns reis. Como hino, escolheram por ele "A trova do vento que passa"; não é o oficial, mas toca como se fosse. Os sons Há notas que persistem, e que sobretudo o silêncio que as antecede faz adivinhar. Sempre que Manuel Alegre entra numa sala, a expectativa é a de ouvir A Trova do Vento que Passa. Se faltar a aparelhagem, recorre-se à voz e no mínimo murmura-se esse poema que o tempo que passa mostrou ser indissociável do nome de Manuel Alegre, uma canção coimbrã, tornada hino não-oficial de campanha. Poder-se-ia dizer demasiado nostálgico ou saudosista quando o que está em jogo é o futuro. Mas não será a esses sentimentos que o candidato quer ir buscar força para chegar a Belém? É vê-lo entrar no restaurante em Cacia -- terra mais conhecida pela capacidade que tem de despertar o olfacto do que pelos seus bons paladares -- e olhar para os rostos que o recebem, ao som das vozes de Coimbra a sair das colunas. Os punhos levantam-se e há lágrimas em alguns olhos. Com a música, as palavras conseguem melhor efeito sobre os sentidos. Emoção é o que se quer e emoção é o que se tem. Que mais pode querer um candidato a Presidente da República? Talvez que a emoção que essa trova ainda desperta se multiplique em votos.
Manuel Alegre Blog Algarve Jovem


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Anónimo, at 6:07 da manhã
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